quarta-feira, 11 de junho de 2008

O cheiro do vinho


Carol Costa

Este post é da minha amiga Carol Costa, que mantém o ótimo blog "sobre tudo" Guindaste. Ela tem um jeito muito bem humorado de ver o mundo, os bichos e as "esquisitices" (diria ela) do universo gastronômico. Ela adora comer, mas não aceita como alguém pode gostar de caramujos e peixe cru. Esta crônica é sobre vinhos. E já que ela nunca fez um desenho para o meu blog, mesmo depois de dez anos de amizade, provoco-a ilustrando este post com um desenho que ela me enviou para fins "comerciais".

"Vai uma taça de curral?

Giz, talco, cânfora, tabaco, verniz, telhas: tem gente que sente esses e outros cheiros ainda mais estranhos ao fungar dentro de uma taça de Chardornay ou Malbec.

“Fresco, com muita evolução, aromas de carne crua, fumaça, carvão e mato molhado”, escreve o enólogo ao avaliar um Barbaresco de R$ 332. Um Barolo Ornato Pio Cesare ganha “toques de couro antigo, madeira antiga e herbáceos; final longo frutado”. Vai ver, foi o dono de um antiquário que entornou os canecos antes de descrever a bebida. E o meu preferido: “Elegante, aroma animal, curral, apimentado e carvão com retro-olfato de lápis”. Pérai, vinho com cheiro de lápis de cor já é demais. Aposto como a vinícola fica numa reserva florestal da Faber Castells.

Ok, eu posso entender que alguém seja surpreendido por aromas bizarros ao tomar um tinto, mas o que faria uma criatura desembolsar um salário mínimo para beber um troço que cheira a churrasco? Ou que lembra uma criação de porcos? Ou ainda que cheire a material escolar?

O que mais gosto ao ler os comentários dos críticos é das licenças poéticas – suspeito que fruto de umas doses a mais no sangue. Ou mais alguém acha que é possível um pouco de uva fermentada cheirar a pão-de-ló, maçã ao forno, brioche fresco, geléia de morango, caju doce, caramelo? E o que dizer de um vinho que é descrito como “divertido”? Você bebe e começa a fazer piadinhas sobre a safra, é isso?

E eu achando que vinho tem gosto de uva com álcool. Quanta ignorância."

6 comentários:

Carol Costa disse...

Ah, mas é uma FOFA mesmo, hein? Botou até a ilustrinha! Prometo que agora faço uma lindona procê — "excrusiva"!

Bê-jo!

Carol Costa disse...

PS: E dá MESMO para sentir tudo isso num vinho?

PS do PS: E é bom um vinho ter cheiro de curral?

Ruben Duarte disse...

Bom, eu também acho que alguns degustadores exageram, sim. Mas, também tem a ver com a percepção diferenciada dos sommeliers...Eu já experimentei vários vinhos elaborados com a uva Chardonnay e os aromas me lembraram o aroma da banana...e isso que não sou um "expert"...
Abraços

Rubén Duarte

Alessander Guerra disse...

Cris estou com sua amiga e não abro. Ainda acrescento outra pérola que li outro dia: que o vinho tinha gosto de borracha queimada. Pera aí, cheiro de borracha queimada eu até sei qual é, mas gosto? Devo admitir que nunca provei.

Veja esse post que fiz sobre tal assunto

http://www.cuecasnacozinha.com/2007/05/o-que-um-vinho-briguento.html

bjs
Alessander Guerra
www.cuecasnacozinha.com

TCarvalho disse...

que brilhante essa definição de cheiro de vinho - cheiro de uva com álcool.

Que mais? Gosto ou não gosto, adequado ou não ao momento, ao prato...

Adorei.
Beijo e parabéns pelo site, que acabei de conhecer.

Anônimo disse...

Minha amiga Cris,

É ótimo ler suas palavras!

Como um apreciador de vinhos sou levado a tentar explicar um pouco dessas bobagens que alguns dizem e muitos discordam.

Em parte, muitas delas são realmente puras bobagens, ditas pelos enochatos, aqueles que não têm nada a dizer, então... eles dizem o nada na forma de palavras.

Mas para quem consegue sentir os aromas diferentes num vinho, eis uma parte da explicação.

Veja só:

O álcool etilico é um dos componentes mais volátil das bebidas
álcoolicas e suporte para os outros. No Whisky ,onde é 40%, pode
saturar a mucosa olfativa por ser o mais intenso, fazendo com que os
outros aromas não apareçam.
No vinho há centenas de componentes voláteis que participam nos
aromas, uns da própria uva, outros da fermentação, outros ganhos no
amadurecimento. Uns em maior quantidade, outros quase imperceptiveis.
Eis alguns:
Alcoois: etanol (alcool), metanol (alcool), feniletanol (floral).
Terpenos: geraniol (rosas), ciranol(limão), linalol(madeira),
terpineol(lírios), hexanol(erva)
Ésteres: acetato de metilo (maçã), formiato de etilo (ameixa),
acetato isoamila (banana)
Aldeídos: fenilpropionico(lilás), etilico(jacinto), cinamico(canela),
benzoico (amendoa)
Outros: vanilina(baunilha), diacetila(manteiga), antralinato de
metila(herbáceo), ionona(violetas), acetona(verniz).
Ácidos: málico(maçã), láctico(lácteos), citrico(citricos)
Alguns ruins: acetato de etilo(vinagre), anidrido sulfuroso(enxofre),
ac. sulfidrico (ovo podre), tricloroanisol(rolha), mercaptanos(xixi
de gato)e muitos outros.

Qualquer deles na quantidade certa dá aromas agradáveis que trazem
complexidade, em excesso traduzem um defeito do vinho.
Um gráfico de cromatografia gasosa para as substancias voláteis do
vinho é algo impressionante de se ver.
Ao vê-lo dá para pensar: Como é
que uma confusão daquelas, pode dar um vinho tão bom?
É o equilibrio da natureza, aperfeiçoado na mão do homem.

Bjs
Agilson