quinta-feira, 15 de abril de 2010

Turbiana, a uva branca de Lugana



Peço desculpas aos meus leitores pela ausência, mas estou preparando um livro a toque de caixa, para o fim deste mês, e não tem sobrado tempo (mesmo) prá escrever. Como tenho mania de guardar posts escritos pela metade, tiro este da gaveta, que vem bem a calhar:

Há alguns meses, fui ao lançamento da importadora Max Brands, no Studio 765, da chef Carla Pernambuco. A importadora, que traz marcas como a Di Cecco, apresentou alguns vinhos de seu portfólio. Além do delicioso (e sempre caro) Amarone da vinícola Cesari, seus proprietários deixaram para o grand finale o vinho Judas, da Bodega Sottano. A vantagem de apresentações de vinhos como esta é a oportunidade de conhecer rótulos que dificilmente você irá comprar. Falando francamente: é fácil gostar de um Amarone, de um Sauternes, de um Borgonha, de um Barolo.... Não tão fácil, porém, é poder desembolsar R$ 300 (e por aí afora), por uma garrafa.

Mas esse tipo de degustação também pode trazer surpresas. E as melhores são aquelas em que você encontra um vinho que chama a atenção e tem um preço que cabe no seu bolso (é por isso que eu sou fã incondicional da coluna do Jorge Carrara na Folha: toda semana ele seleciona um vinho decente e barato). Desta vez, a grata surpresa foi um vinho branco - o único da noite - e que foi servido durante o jantar preparado pela parceira de Carla, a chef Carolina Brandão. O Cesari Cento Filari 2008-Lugana DOC é um vinho fresco, discreto, que traz delicioso aromas de frutas cítricas (fáceis de perceber) e que combina muito bem com a comida - para mim, o capítulo mais difícil no aprendizado de vinhos (ao qual venho me dedicando, fielmente e há meses, nas noites de quinta-feira). E o melhor: custa apenas R$ 60.

O vinho também me chamou a atenção por que leva em sua composição (95%) uma uva da qual nunca tinha ouvido falar (também, são milhares!): a Turbiana. Fui, então, pesquisar sobre ela, e, conhecendo sua história, o vinho ficou ainda mais especial (histórias, aliás, que só começaram a ser contadas de umas poucas décadas prá cá, graças à Genética).

A uva Turbiana é, na verdade, a Trebbiano di Lugana, típica da região de Lugana, no Lago de Garda, Lombardia, onde o vinho é feito. A região tem um solo bastante particular que, aliado à uva, produz vinhos únicos, num mar de vinhos globalizados. "São vinhos sápidos, cheios de estrutura, perfumados, intensos e cheios de caráter, além de longevos", escreve um de seus entusiastas (não é à toa, portanto, que chamou atenção de muitos naquele jantar da Max Brands). Mas, de acordo com alguns especialistas, ela se parece com outra cepa italiana, a Verdicchio. Muitas variedades que levam o nome Trebbiano têm características fenotípicas similares (como o tempo de amadurecimento, por exemplo). Outras, com características morfológicas similares, ganharam nomes diferentes. Por isso, há muito estudos - neste e em tantos outros casos (o da Carmenère chilena, por exemplo, é emblemático) - com cultivares e variedades tentando esclarecer suas filiações genéticas.

No caso da Trebbiano, os cientistas preceberam que a maioria dos seus 17 cultivares não derivam de um ancestral comum. Assim, a Turbiana ou Trebbiano di Lugana (o nome local para a Trebbiano di Soave), considerada muito saborosa e aromática, é mais aparentada à uva Verdicchio do que à Trebbiano, embora seja diferente de ambas. De acordo com a Universidade de Milão, ela é nativa e exclusiva desta região vinícola. Diante disso, o presidente do Consorzio Tutela Lugana DOC pediu o reconhecimento formal da uva e a seleção de clones autorizados dela. Agora que estou mergulhada até o último fio de cabelo em uvas, está na hora de comprar uma nova garrafa de Turbiana, a uva branca de Lugana.

6 comentários:

Anônimo disse...

Adorei está historinha!
Belo post, parabéns! Marcos.

Anônimo disse...

adorei a história. Belo post! marcos.

winebroker disse...

Agora fiquei curioso! rs,rs,rs.
Irei pesquisar. Depois conto no Blog.
Parabéns pela informação.

Abraço,

Anônimo disse...

Cris,

Post muito bom. Parabéns!

No momento que escrevo sobre ou Trebbiano, só que de Abruzzo, te informo que solicitei à vinícola Don Laurindo uma garrafa do blend Malbec, Tannat e Ancelotta 2005 para harmonização com barreado.

Assim que chegar te aviso, espero que seja antes de 17 de maio!

Passe-me seu e-mail porque não acho o seu cartão.

abraço

Jeriel - blog homônimo

Cris Couto disse...

obrigada, winebroker!

Cris Couto disse...

Jeriel,
Vamos nessa, está tudo caminhando para nossa harmonização!
abs