quarta-feira, 18 de abril de 2012

Como era a comida de rua há 200 anos?

                                          Vendedoras de angu, iguaria sofisticada segundo Debret



A capa do Comida de hoje dedica-se à comida de rua, e à falta de regulamentação no país, ao contrário da seriedade com que ela é tratada pelas autoridades em outras cidades, como Nova York e Londres. Vou aproveitar o gancho (e uma citação de André Barcinzki, em opinião sobre o mesmo assunto no mesmo caderno) para mostrar um pouco da história da comida de rua.
Jean Baptiste Debret (1768-1848) foi um dos estrangeiros que mais retratou a comida de rua no Brasil colonial. Talvez por ter vivido no Rio de Janeiro durante tanto tempo (boa parte dos anos entre 1816 e 1831), enquanto seus colegas naturalistas usavam a cidade como ponto de partida para iniciar suas expedições pelo Brasil. Grande pintor de tipos humanos e interessado em retratar a cidade e suas atividades, Debret deixou em sua Viagem pitoresca e histórica ao Brasil um rico retrato do comércio fervilhante nas ruas da capital.
Nos mercados, ruas e quitandas, ele pinta cenas daqueles que sustentam a cidade, como as vendedoras de milho, ex-escravas que ficam nos mercados, com braceletes de cobre e turbante de arrudas, assando as espigas na brasa. Outros carregam linguiças suspensas em uma vara, que o artista descreve como “espécie de salsicha muito seca, sem gordura e fortemente apimentada” que, com legumes e carnes de vaca, fazem o “caldo gordo”.
                                                            Vendedoras de milho
Uma multidão de mulheres transita pelas ruas vendendo o aluá, uma bebida feita de água de arroz macerado e açúcar, mixiricas em gomos e cana-de-açúcar em pedaços, que ficam conservados sob toalhas umedecidas.
Entre os quitutes de tabuleiros, os manuês, folhados recheados de carne, protegidos por cobertas de lã que os mantêm aquecidos; há também sonhos, fatias de pão passadas em melado, amontoados em pirâmides.  Debret conta que, depois de 1822, chegaram ao Rio quitandeiras baianas, com seus turbantes e camisas bordadas, oferecendo guloseimas como o “ataçaça”, um creme doce frio, servido em canudo feito de folha de bananeira, e o bolo de canjica, vendido em folhas de mamoeiro.
                                             Vendedoras de sonhos, manuês, aluás
As vendedoras de angu ficam em suas quitandas ou circulam pela praça. Para  o francês, fazem uma iguaria requintada, com diversos pedaços de carne e miúdos, banha de porco, dendê, quiabo, folhas de nabo, pimentões e tomates. Para acompanhar, uma vasilha com farinha de mandioca molhada. Há, ainda, as vendedoras de pão-de-ló, um bolo leve, que acompanha o café (também vendido nas ruas, em vasilhas de barro ou porcelana) ou o chá.

3 comentários:

Eric Heneault disse...

Cris, esse assunto da comida de rua é muito interessante e pertinente. De fato, até o século 19 e a institucionalização dos restaurantes não havia nada mais normal do que comer na rua, principalmente (mas não somente) em barracas nas feiras ao ar livre (o que ainda acontece aqui com o tradicional pastel de feira). Esse tipo de refeição até hoje é perfeitamente comum nos Estados Unidos (a famosa street food, muito diferente da duvidosa fast-food), na Ásia e no Oriente Médio. Na Europa existem vários exemplos: é muito comum encontrar pessoas comendo sanduíches ou panquecas recheadas nas ruas de Paris no horário de almoço, e quem ainda não provou uma “bratwurst mit zenf”, na Alemanha ainda não descobriu um dos grandes prazeres gastronômicos desse planeta!!! . De fato, comida é sinônimo de sociabilidade, prazer e compartilhamento e não pode ser confinado apenas em restaurantes que, apesar de do papel essencial que eles têm na história e atualidade da gastronomia, também acabam sendo sinônimos de estratificação social. Daí a importância de resgatar a comida de rua, a mais universal e socializante de todas, desde que bem feita e saudável, claro!

Cris Couto disse...

oi eric!
pois é, concordo com você.
o assunto é tão empolgante e tem tanto a ser descoberto que um colega, o historiador João Luiz Máximo, fez sua tese sobre a alimentação de rua na cidade de São Paulo no século 19. ele avalia as relações dessa alimentação com a própria cidade, num momento de intensas modificações. Tem pano pra manga!
um abraço e obrigada pelo teu interessante comentário!

Sara disse...

Realmente uma bela história, é sempre gratificante para encontrar essas coisas, porque é muito interessado em ler sobre a história das pessoas e saber como se formaram grandes cidades, eu espero que você pode fazê-lo em algum momento, talvez em algum ponto Eu gostaria de poder escrever a minha própria história de quando eu comecei a abrir os restaurantes em barueri