segunda-feira, 30 de julho de 2007

Filosofia da degustação



Algumas pessoas acham que a gente deve comer e pronto. Sem essa de ficar pensando sobre o que está à mesa. Tem que ser gostoso, e acabou-se. Sem dúvida que tem que ser de lamber os beiços. Mas a modernidade trouxe consigo a racionalização em todas as áreas. Obras de arte são para se admirar, mas não só. Elas contam uma história, marcam um período, traduzem em tintas a mensagem do artista, sua identidade, o que ele pensa sobre o mundo. E todos (mesmo sem compreender) respeitam aqueles que refletem sobre a arte.

E como "cada um é cada um", eu faço parte do grupo que troca quase sempre um romance pelo Tratado elemental de cocina do químico Hervé This ( Editorial Acribia, 2005), ou pela nova edição de Açúcar, do nosso ilustríssimo Gilberto Freyre. E sinto falta de matérias mais consistentes na mídia nacional. Por isso, indico aqui as colunas de um amigo, o sociólogo Carlos Alberto Dória (já o citei em post anterior), que escreve mensalmente no Trópico. Como ele adora refletir, comer e escrever muito, não vou reproduzir a coluna na íntegra, mas apenas abrir o apetite (o restante vocês lêem no site). Em tempo: Dória foi gentil comigo, ao descrever no texto exatamente como tomo (ops, degusto) o meu espresso! Vamos lá:

Filosofia da degustação

A construção de uma Razão Degustadora é o guia iluminista para o consumo moderno do alimento

Se você topar com alguém diante de um café expresso sem açúcar, que afasta a espuma com as costas da colherinha, observa o creme com ares de quem disseca um inseto, leva a xícara ao nariz para sentir o aroma e só depois leva à boca, pode estar certo: está diante de um “barista”.

Não adianta procurar: a palavra não está no Houaiss. Esse tipo de gente que sabe tomar um café corretamente (isto é, com novos e diferentes gestos) é uma novidade, mas já existe até revista especializada em cafés que devem ser tomados dessa forma.
O lobby do novo café quer mudar a nossa vida.

Coberto de razão, o crítico Arnaldo Lorençato chamou a atenção, em recente seminário sobre tendências modernas do consumo1, para essa moda brasileira de se “degustar” tudo: vinho, café, chocolate, uísque, cachaça, sal, azeite, e até água... A própria água universal (H2O) parece tão múltipla que uma “trademark” (Pepsi-Cola) não se peja em chamar seu novo refrigerante de sucesso justamente H2OH!

Sem dúvida é mais seguro nos cercarmos de conhecimentos que garantam o insosso da água diante das ciladas de sabores. Mas esta tendência de se buscar guias seguros em meio à incerteza dos sabores sequer é uma moda “brasileira”. Apenas chegou aqui, para nosso espanto, convertendo-se em um novo ramo de negócios e entrando regularmente nos cálculos do marketing da indústria da alimentação, especialmente no segmento de luxo.

A palavra deriva do francês “déguster” e surge no início do século XIX. Ela nos indica que o gosto não é algo imediato e irrefletido. Mas por que já não podemos confiar na primeira sensação que o paladar nos sugere? ...


Para ler mais acesse: Filosofia da degustação
Photo by Pedro Martinelli

2 comentários:

Carol Costa disse...

Uma dica: se você estiver ao lado de alguém que toma café assim, assobie e comente sobre a pintura do teto até que ela pouse a xícara no pires. Só assim para você passar (quase) despercebido, porque TODO MUNDO fica olhando e querendo saber mas quem é aquela maluca que cheira café antes de beber...

Cris Couto disse...

vamos achar um lugar com pintura no teto que valha apena deixar a xícara de café por um minuto (porque ele vai esfriar rapidinho...). Vc não tem jeito, né, fofa?