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quinta-feira, 5 de abril de 2012

Jantando em NY: Chinatown

Passeio imperdível para quem vai a Nova York, Chinatown oferece bons restaurantes a preços módicos. São, porém, dezenas deles - não apenas chineses, já que nos últimos tempos o populoso bairro de Manhattan tornou-se morada, também, de filipinos, dominicanos, portoriquenhos e vietnamitas.


O guia Michelin New York 2011 traz 11 indicações de restaurantes chineses, e é o melhor guia quando não se tem a sorte, como eu, de visitar o bairro na companhia de um novaiorquino e frequentador assíduo de seus restaurantes e mercearias.
Obviamente, o ambiente destas casas não é a medida da sutileza de suas cozinhas. Pequeno e apertado, o Great NY Noodle Town, um típico restaurante de noodles de Hong Kong, está por ali há décadas. Recebe tanto locais quanto turistas, atraídos pela culinária cantonesa, pela ótima relação custo-benefício e pelo horário extendido - a casa funciona até 4 da manhã.

O cardápio, exposto sob o vidro que protege as mesas - algumas comunitárias, o que não impede espera na porta do restaurante -, é extenso. Mas para quem frequenta a casa há mais de 30 anos, fica fácil pinçar algumas das melhores ofertas. Uma delas é a jumbo shrimp noodle soup, camarões gordos, num caldo delicado e aromático, sobre noodles de uma textura macia e firme - estes últimos, muito superiores (infelizmente) aos que temos por aqui.

Mas surpreendente mesmo foi a carne de porco assada, uma das especialidades da casa. O porco demora 3 dias para ficar pronto, e tem apenas 6 semanas de idade. A carne, macia e suculenta, é envolta pela pele fina e muito crocante, perfeita.


Porcos e patos assados, de fato, ficam expostos no pequeno balcão na entrada do restaurante, e reforçam o caráter típico de alguns restaurantes do bairro, nada ocidentalizados.

Uma saída para escolher entre tantos itens é simplesmente observar o que está sendo servido nas outras mesas. Um senhor não parou de nos perguntar o que estávamos comendo, tantas e tão atrativas eram as porções que chegavam para nós (a propósito, o inglês dos garçons é terrível...). Desse modo, não passou despercebido pelo nosso vizinho faminto uma deliciosa caçarola de carne cordeiro em pedaços, com pele de tofu.

E, embora de aspecto pálido, este peixe é imperdível. É um black bass (sem tradução por aqui, é um peixe muito comum nos EUA), "salgado" com bicarbonato de sódio, seco e, depois, polvilhado com amido de milho e frito por imersão. Delicadíssimo e muito saboroso.

Depois desta extravagância (acompanhada de uma boa cerveja), vale passear um pouco pelo bairro e entrar nas diversas lojas, mercearias e peixarias - como esta, na mesma rua do restaurante, em que aquários com os peixes que servirão para a próxima refeição são lugar-comum.

Great NY Noodle Town (28 Bowery St. at Bayard St., Chinatown, 212/349-0923)

quarta-feira, 7 de março de 2012

Receituários do bem


Sim, este é um post para quem, como eu, gosta de história. Comentei recentemente sobre um evento dedicado a livros de cozinha, que aconteceu em fevereiro em Nova York e do qual participei.

A temática, como era de se esperar, girou em torno da cultura culinária americana – cuja riqueza passa, entre outros fatores, pela miríade de influências vindas com as diversas levas de imigrantes, em épocas distintas de sua história.

Um assunto recorrente nas apresentações e que me chamou a atenção foi a discussão em torno dos community cookbooks. O que são eles? Community cookbooks são receituários de cozinha, produzidos com o intuito de arrecadar fundos para instituições de uma determinada comunidade. Organizados por mulheres, reuniam receitas doadas pelas famílias locais e a receita obtida com sua venda destinava-se a igrejas, hospitais, cemitérios, escolas e, até mesmo, museus. Os primeiros “receituários do bem” foram produzidos nos Estados Unidos a partir de 1864. O primeiro deles chamava-se A Poetical Cook-Book, publicado naquele ano na Filadélfia. Em 1916, já havia 3.000 destes livros publicados no país, em virtualmente todos os estados da nação.

De capa dura no início, foram aos poucos e com o tempo migrando para formatos mais simples, como os espirais. Às vezes, possuíam anúncios pagos, e reuniam as receitas “favoritas”, “mais celebradas”, “testadas”, “práticas” e “úteis”. O mais interessante, porém, é que as receitas ali reunidas eram, geralmente, seguidas no nome de sua doadora. Alguns deles eram, inclusive, bilíngues, o que mostra sua aproximação e importância dentro das comunidades estrangeiras que se estabeleceram no país, como judeus, alemães e espanhóis.

A popularidade destes receituários de caridade retratam, mais do que uma reunião de receitas, as histórias dessas comunidades e o perfil de suas mulheres , seus desejos e suas lutas. Eles nascem num tempo em que as mulheres ainda não tinham direitos nem tampouco representatividade política, e os livros de cozinha eram um modo de participar da vida pública do país. Uma leitura mais atenta mostra ainda traços das questões debatidas na época de cada publicação: a industrialização da dieta com a produção de enlatados e teorias raciais são algumas dessas questões.

Para os estudiosos que se encontraram naquela fria tarde de fevereiro em Nova York, os community cookbooks são uma fonte mais fidedigna daquilo que realmente se cozinhava.

Para saber mais: Bowler, Anne L. (org.). Recipes for Reading: community cookbooks, stories, histories. Boston: University of Massachusetts Press, 1997.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Jantando em NY: The Modern

O Salão do Bar Room, no The Modern

Quando parei na frente do restaurante The Modern, em Nova York, a primeira coisa que pensei foi: por que não decidi vir aqui antes? Estava frio e, como se pode esperar nos restaurantes da cidade, o ambiente, quentinho, pedia uma visita. Mas não é só. Eram duas horas da tarde de quarta-feira e o local estava, ainda, apinhado de gente. Com ambiente de extremo bom gosto, muito movimento e um serviço superatencioso, o The Modern, na região da 5a Avenida, não é só uma opção interessante para quem bate perna nas lojas chiquérrimas da área (exatamente o que eu estava fazendo...).

Codorna

Ele é o exemplo claro de como se pode investir num restaurante atraente mesmo que ele esteja conectado (e, ainda sim, independente) a uma atração ainda maior – neste caso específico, o MoMa (Museum of Modern Art).

O salão destinado ao menu-degustação

Separado, apenas por uma parede de vidro, do jardim de esculturas do museu, o restaurante é tocado por um chef alsaciano (Gabriel Kreuther) e tem um confeiteiro (Marc Aumont). Tem um espaço para refeições mais formais, com menu-degustação de inclinação franco-americana, e outro mais informal – o Bar Room, onde almocei, que privilegia pratos mais clássicos da Alsácia. A carta de vinhos é ampla (cerca de 900 rótulos) e os pratos de almoço, estimulantes. À noite, serve-se um menu-degustação. Como ainda iria jantar bem, escolhi, em meio a rilletes, foie gras e cogumelos, apenas um prato: um aromático e delicado pappardelle de lagosta do Maine “au poivre” (U$ 29). Para beber, um riesling alsaciano em taça (Marcel Weiss, U$ 13).

Consomê de cerejas, criação de Aumont

Por aqui...

São Paulo pouco investe neste filão: lembro-me de que, há uns bons anos, o restaurante do Masp teve certa visibilidade. Comer lá chegou a ser um programa “moderno”. Hoje, ele ainda funciona, mas ninguém mais fala dele.

A biblioteca municipal Mário de Andrade, que passou por uma reforma grande, está tinindo, mas seu café está desativado há mais de um ano, à espera de contratação. Quando isso acontecer, provavelmente será uma cafeteria anônima, com um café medíocre, como tantas outras. Quando visitei a Pinacoteca, em abril do ano passado, seu café estava em reforma. Só reabriu meses depois.

Nem tudo é, digamos assim, banal. No Instituto Tomie Ohtake, o restaurante Santinho, comandado por Morena Leite, do Capim Santo, vale a visita. Também o gostoso (embora um pouco caro) Prêt Café, na Bela Cintra, cuida do almoço de quem vai ao MAM (Museu de Arte Moderna). Que venham outros.

The Modern (9 West 53rd Street, Midtown, 212/333.1220)

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

I love NY


istockphoto


A Folha e o Estado de ontem dedicaram algumas páginas à Big Apple (Folha Turismo e Paladar, respectivamente). Parece que todo mundo teve a mesma e deliciosa ideia: aproveitar a paisagem incrível de fim de ano gelado e os preços camaradas (é isso aí: NY está bem mais barata que SP, principalmente na relação preço-qualidade). Fiz o mesmo, e aproveito a deixa para postar, a conta-gotas se me permitem, minhas experiências em NY durante a semana do Natal (que incluiu, também, a nevasca).

Minha primeira dica (além de imprescindíveis gorro, luvas, cachecol e botas de borracha para enfrentar a neve) é onde ficar: no Hudson Hotel. É um hotel-design pertinho do Central Park, no quarteirão do Time Warner Center (e do triestrelado Per Se), e com preço (apartamento standard duplo) de hospedagem 2 estrelas em Copacabana na alta temporada.


Os quartos mais simples são pequeninos, mas têm charme. O lobby, de pé direito altíssimo, tem heras por todo o teto (de vidro) e janelas enormes, através das quais se vê um lindo terraço. No dia seguinte à nevasca e a despeito do caos nos sistemas de transporte novaiorquinos, a vista era um espetáculo! E para quem chega de um jantar, o hotel tem uma baladinha ótima para finalizar a noite, com a vantagem de precisar, apenas, pegar o elevador.


O hotel, do grupo Morgans (que mantém, entre outros, o Delano de Miami), foi montado num prédio do século 19 que serviu à Associação Cristã de Moças. A decoração leva a assinatura de Philippe Starck - escadas rolantes em neon, elevadores com som-ambiente, iluminação bacana. E, claro, os cuidados se estendem também à cozinha do Hudson. Em resumo: um hotel cool, bem localizado e barato.


Hudson Hotel (356 West 58th Street, Nova York, 212/554.6000)