terça-feira, 20 de janeiro de 2009

sábado, 17 de janeiro de 2009

Vinho e cultura



Já estão pipocando os primeiros eventos etílicos para abrir 2009. A charmosa escola Ciclo das Vinhas, da sommelier Alexandra Corvo, prepara no dia 22 uma apresentação do livro As mil e uma noites, do século 9, regada com o tinto português Periquita. Quem fará a palestra sobre o livro é o professor do departamento de idiomas orientais da USP Mamede Mustafa Jarouche, responsável pela tradução do livro do árabe para o português. A palestra abre a série "Clássicos com Periquita", acontece às 20h e custa R$ 50.

Segue o textinho introdutório da obra, divulgado pela Alexandra:
"O Livro das Mil e uma Noites é uma das principais obras da literatura árabe e universal. Produzida por volta do século IX d.C. e somente finalizada na segunda metade do século XVIII, essa obra começou a ser divulgada no Ocidente a partir do início do século XVIII, por meio da tradução francesa do erudito Jean-Antoine Galland, e obteve sucesso fulminante, sendo então retraduzida para a maioria das línguas européias com base nessa pioneira tradução francesa. Trata-se de uma dos maiores compilações de narrativas da literatura universal, que alimentou e tem alimentado o imaginário de toda espécie possível de leitor. Foi adaptada para crianças, mas dela também se extraíram contos de fadas, histórias de terror e suspense e narrativas sensuais. Serviu de modelo tanto para inocentes livrinhos infantis como para o filme do mesmo nome de diretor italiano Pasolini, sem contar a infinidade de escritores modernos que se declaram influenciados por ela. Essa maleabilidade é mostra a riqueza desse livro verdadeiramente camaleônico."


Ciclo das Vinhas (rua Maria Figueiredo, 305, Paraíso, São Paulo, 3284.3626)

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Julie e Julia, a (deliciosa) missão


Divulgação
Em dezembro, foram liberadas as primeiras imagens do filme Julie & Julia, em que a atriz Meryl Streep faz o papel da cozinheira norte-americana Julia Child. Recapitulando: o filme (com lançamento previsto para este ano), originou-se de um livro de Julie Powell (publicado eme 2005), uma escritora-blogueira que resolveu fazer, em um ano, todas as 524 receitas ensinadas por Child no seu já clássico Mastering the art of french cooking.


Como a minha estante ainda não tem o livro de Powell nem essa verdadeira bíblia gastronômica na América dos anos 60, fui à blogosfera atrás de informações sobre as obras, de mais notícias sobre o filme (o papel de Julie será da atriz Amy Adams que, para ser sincera, desconheço), visitei o blog da moça e acabei caindo na deliciosa reportagem da revista Time sobre a famosa cozinheira-apresentadora de TV. Eram idos de 1966, e lá estava ela na capa da prestigiosa revista (deve ter sido um arraso!).


Assim, depois da passagem pelo Brasil do vanguardista Adrià (que, aliás, foi o eleito do Roda-Viva de hoje), e da tradução para o português de As revoluções de Ferran Adrià, uma biografia bacana do jornalista Manfred Weber- Lamberdière, vamos tirar da gaveta a história de Child, a mestra de muitos?

Sem saber fritar um ovo, Julia Child casou-se e, residindo temporariamente em Paris por conta do trabalho de Paul, seu marido-gourmet (naquela época era "esposo", não?), decidiu enfrentar a cozinha e matriculou-se na centenária Le Cordon Bleu. Estava dada a partida para o seu estrelato na frente das câmeras e atrás do fogão: Julia comandou o The french chef , um tremendo sucesso da telinha. O segredo? Ela dá a primeira resposta: "A cozinha francesa é simplesmente um maravilhoso jeito de tratar a comida".

Senão, vejamos: estamos na América de 40 anos atrás - um país que começava a se preocupar com a obesidade nos dois gêneros e em dois níveis (estéticos e dietéticos). É o período, segundo o sociólogo Harvey Levenstein, do boom dos produtos "diet" e "calorie-reduced" entre os homens (principalmente os da classe média), o da contra-cultura (comidas naturais, sem pesticidas etc.), da vitamino-mania. Talvez a coisa toda tenha ficado tão insossa que as classes mais abastadas voltaram a atenção e o paladar para a cozinha francesa - uma espécie de "revival" do gosto e da comida fina como símbolo de status, tal como na virada do século 20.

Photobucket
É nesse cenário — que inclui ainda "novidades" como panelas de Teflon e modernas máquinas de lavar-louça domésticas - que surge Julia e seus ensinamentos de cozinha francesa que, segundo ela, é lógica, simples e boa. Em 1961, Julia publica Mastering the art of french cooking, em parceria com as francesas Louisette Bertholle e Simone Beck — em seu quinto ano, o livro virou um fenômeno de vendas: quase 300 mil cópias. Em 1963, suas receitas estrearam em preto-e-branco e em 1966 já cruzavam de uma costa a outra dos EUA por meio de 104 emissoras de TV. Parece que foi o primeiro programa educacional (isso mesmo) a ganhar um Emmy. "Se Julia menciona wafers de baunilha, as prateleiras dos supermercados esvaziam-se da noite para o dia", diz a reportagem. Todos cozinham com Julia... Ela também tinha jeito prá coisa: "Todas as mulheres deviam beijar seu açogueiro", ensinava. Se errasse - o que acontecia frequentemente - dizia: "Nunca se desculpe" ou "o molho ficará ainda melhor assim".

Quis ser jogadora de basquete e escritora. Fumava, trabalhava 13 horas diárias na produção do programa (o primeiro de muitos, que surgiram nas três décadas seguintes) e, preparando brioches e croissants, ficou tão famosa quanto James Beard — o "rei dos gourmets", que vendera 500 mil cópias de seus 14 livros e que "levou mais homens à cozinha antes de Child". "Há tantos pratos franceses maravilhosos que acho que não vou viver o bastante para fazê-los todos", disse à Time. Julia morreu em 2004 (o que ainda dará pano prá manga, ou melhor, mais posts neste blog).

Voltando à Julie e seu blog-que-virou-livro-que-virou-filme: a texana Julie, com 30 anos, mora no Queens (NY), trabalha como secretária e foge da monotonia ao criar o projeto Julie/Julia. Promete bastante humor e muitas receitas — Julie é (como já começaram a apelidá-la) uma espécie de Bridget Jones, só que das panelas. É esperar e conferir.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Os melhores de 2008


Na segunda edição de "Seja Bemvinho melhores do ano (pelo menos prá mim)", decidi apenas eleger uma seleção dos livros de gastronomia de que mais gostei em 2008 (restaurantes, vinhos e outras delícias que visitei ou provei em 2008 e sobre os quais ainda não postei entrarão sorrateiramente em 2009...!).
O impulso veio por meio da coluna Estante, que escrevo mensalmente na revista menu, e de tantas outras leituras que, pela viés mais acadêmico, pela especificidade do tema ou mesmo pela falta de espaço numa revista impressa não couberam lá. Vamos a ela (ah: 1. a relação abaixo não está necessariamente em ordem de preferência, mas apenas de lembrança; 2. pode ser que eu continue em posts posteriores, porque essa empolgação blog-literária acaba consumindo um tempão...).

1. Cozinha modelo - João Luiz Máximo da Silva (Edusp)
Um dos melhores lançamentos do ano, sério e bem escrito. O livro é resultado da tese de mestrado de João Luiz em história pela USP, e trata do impacto da eletricidade e do gás na casa paulistana - particularmente na cozinha - entre 1870 e 1930. O autor percorre uma vasta quantidade de documentos e escolhe bem suas obras de apoio, além de objetos (referidos academicamente como cultura material) para compor um quadro histórico preciso, bastante delimitado e muito interessante sobre as modificações ocorridas no ambiente doméstico na virada do século 19 para o século 20. Nesse período, a expansão cafeeira traz profundas modificações no que, até então, era um povoado, e que são fruto das transformações tecnológicas com a introdução dessas novas fontes de energia. Entre vários aspectos, João Luiz aborda os sentimentos contraditórios provocados pela chegada do gás (crença em seus poderes curativos e terapêuticos ao lado do medo de intoxicação); as novas formas de organizar o tempo e o espaço doméstico, com a mecanização da cozinha e a racionalização de seu espaço (não mais uma cozinha bandeirista, mas um espaço menor e integrado à casa, com fornecimento constante de combustível, diferentemente da finitude da lenha ou do carvão); o ideal de civilização e progresso embutido na utilização dessas novas fontes de energia (criadas a partir de capital estrangeiro); a propaganda higienista focada também no espaço da cozinha; os novos métodos de cozinhar, com um controle mais preciso da fonte de calor, e os novos padrões de nutrição. Imprescindível.

2. História do café - Ana Luiza Martins (Contexto)


3. O mundo é o que você come - Barbara Kingsolver (Nova Fronteira)
A narrativa de Bárbara Kingsolver em O mundo é o que você come flui bem melhor do que as águas que chegam do México à desértica e populosa Tucson, no Arizona.“Nós a bebemos, enchemos máquinas de café e preparamos sucos com um fluido que faria um girino ficar enjoado”, crava a jornalista e bióloga norte-americana. Por isso, parte com a família em busca de uma alimentação mais digna. Misto de memória e reportagem, o livro discute nossa conduta alimentar atual a partir da saga dos Kingsolver, que por um ano viveram sustentavelmente numa fazenda na Virgínia. Intercalando textos do marido Steven Hopp e da filha Camille, a autora não pretende ensinar a plantar batatas. Ao contrário, nos lembra que há milhares de pessoas como o personagem Malcolm, para quem as cenouras não brotam, mas são enfiadas na terra. (texto publicado na menu de agosto/2008)

4. Com unhas, dentes e cuca - Alex Atala e Carlos Alberto Dória (Senac)

domingo, 4 de janeiro de 2009

A "festa" na Amazônia


Istockphoto
A região da Amazônia ferveu nesse fim de ano. Duas notícias importantes podem ter passado despercebidas - pelo menos por essas latitudes - durante as festas de Ano-Novo. A primeira delas é o acordo entre os governos brasileiro e francês para a criação de um instituto para estudos científicos e tecnológicos na região (confira notícia integral no Jornal da Ciência). Tão logo ele foi sacramentado, já há desacordos.

A segunda é péssima para todos e descortina o descaso do Brasil em relação aos nossos museus e ao nosso patrimônio material. Quarenta títulos raros (num total de 65 exemplares) foram roubados, em dezembro, do Museu Paraense Emilio Goeldi, em Belém, causando um prejuízo financeiro de R$ 2 milhões. Outros prejuízos com o sumiço de preciosidades dos séculos 17, 18 e 19 são, obviamente, incalculáveis.

A biblioteca é referência internacional nos assuntos que dizem respeito não só à Amazônia, mas às américas central e do sul nas áreas de Antropologia, Arqueologia, Botânica, Ecologia, Lingüística e Zoologia. Entre as obras roubadas estão escritos de naturalistas, como Guilherme Piso, Johann Emmanuel Pohl e Johann Baptist von Spix, que descreveram - cada qual a seu modo e de acordo com os critérios de seu tempo - a natureza e as gentes do Brasil. Também está na lista uma monografia de Charles Darwin sobre os Cirripedia, considerado o primeiro estudo sobre esta sub-classe de moluscos marinhos à qual pertencem os (deliciosos) percebes.

Desenho de Ernst Haeckel, de 1904, detalhando os Cirripedia

Outra obra maravilhosa, do século 17, também desapareceu. Seu autor, a naturalista holandesa Maria Sybilla Marien (1647-1717), era uma exímia artista (como muitos naturalistas do século 19, pois fazia parte das atribuições desse tipo de "cientista multidisciplinar"). É só espiar as ilustrações de sua obra sobre insetos e plantas — muitos deles identificados por ela -, que estudou no Suriname, então uma colônia holandesa.

Foto Museu Emilio Goeldi

Pena, pena, pena.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Os melhores do ano - 2ª edição


Na segunda edição de "Seja Bemvinho melhores do ano (pelo menos prá mim)", decidi apenas eleger uma seleção dos livros de gastronomia de que mais gostei em 2008 (restaurantes, vinhos e outras delícias que visitei ou provei em 2008 e sobre os quais ainda não postei entrarão sorrateiramente em 2009...!).
O impulso veio por meio da coluna Estante, que escrevo mensalmente na revista menu, e de tantas outras leituras que, pela viés mais acadêmico, pela especificidade do tema ou mesmo pela falta de espaço numa revista impressa, não couberam lá. Vamos a ela (ah: 1. a relação abaixo não está necessariamente em ordem de preferência, mas apenas de lembrança; 2. pode ser que eu continue em posts posteriores, porque a empolgação literária acaba consumindo um tempão...).

1. Cozinha modelo - João Luiz Máximo da Silva (Edusp)

Um dos melhores lançamentos do ano, sério e bem escrito. O livro é resultado da tese de mestrado de João Luiz em história pela USP, e trata do impacto da eletricidade e do gás na casa paulistana - particularmente a cozinha - entre 1870 e 1930. O autor percorre uma vasta quantidade de documentos e escolhe bem suas obras de apoio, além de objetos (referidos academicamente como cultura material) para compor um quadro histórico preciso, bastante delimitado e muito interessante sobre as modificações ocorridas no ambiente doméstico na virada do século 19 para o século 20 (período que se inicia com a expansão cafeeira e as profundas modificações por ela produzidas no até então povoado), fruto das transformações tecnológicas com a introdução dessas novas fontes de energia. Entre vários aspectos, João Luiz aborda os sentimentos contraditórios provocados pela chegada do gás (crença em seus poderes curativos e terapêuticos ao lado do medo de intoxicação); as novas formas de organizar o tempo e o espaço doméstico, com a mecanização da cozinha e a racionalização de seu espaço (não mais uma cozinha bandeirista, mas um espaço menor e integrado à casa, com fornecimento constante de combustível, diferentemente da finitude da lenha ou do carvão); o ideal de civilização e progresso embutido na utilização dessas novas fontes de energia (criadas a partir de capital estrangeiro); a propaganda higienista focada também no espaço da cozinha; os novos métodos de cozinhar, com um controle mais preciso da fonte de calor, e os novos padrões de nutrição. Imprescindível.

2. História do café - Ana Luiza Martins (Contexto)



3. O mundo é o que você come - Barbara Kingsolver (Nova Fronteira)
A narrativa de Bárbara Kingsolver em O mundo é o que você come flui bem melhor do que as águas que chegam do México à desértica e populosa Tucson, no Arizona.“Nós a bebemos, enchemos máquinas de café e preparamos sucos com um fluido que faria um girino ficar enjoado”, crava a jornalista e bióloga norte-americana. Por isso, parte com a família em busca de uma alimentação mais digna. Misto de memória e reportagem, o livro discute nossa conduta alimentar atual a partir da saga dos Kingsolver, que por um ano viveram sustentavelmente numa fazenda na Virgínia. Intercalando textos do marido Steven Hopp e da filha Camille, a autora não pretende ensinar a plantar batatas. Ao contrário, nos lembra que há milhares de pessoas como o personagem Malcolm, para quem as cenouras não brotam, mas são enfiadas na terra.

4. Com unhas, dentes e cuca - Alex Atala e Carlos Alberto Dória (Senac)

sábado, 27 de dezembro de 2008