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Em dezembro, foram liberadas as primeiras imagens do filme
Julie & Julia, em que a atriz Meryl Streep faz o papel da cozinheira norte-americana Julia Child. Recapitulando: o filme (com lançamento previsto para este ano), originou-se de um livro de Julie Powell (publicado eme 2005), uma escritora-blogueira que resolveu fazer, em um ano, todas as 524 receitas ensinadas por Child no seu já clássico
Mastering the art of french cooking.

Como a minha estante ainda não tem o livro de Powell nem essa verdadeira bíblia gastronômica na América dos anos 60, fui à blogosfera atrás de informações sobre as obras, de mais notícias sobre o filme (o papel de Julie será da atriz Amy Adams que, para ser sincera, desconheço), visitei o
blog da moça e acabei caindo na deliciosa reportagem da revista
Time sobre a famosa cozinheira-apresentadora de TV. Eram idos de 1966, e lá estava ela na capa da prestigiosa revista (deve ter sido um arraso!).

Assim, depois da passagem pelo Brasil do vanguardista Adrià (que, aliás, foi o eleito do Roda-Viva de hoje), e da tradução para o português de
As revoluções de Ferran Adrià, uma biografia bacana do jornalista Manfred Weber- Lamberdière, vamos tirar da gaveta a história de Child, a mestra de muitos?
Sem saber fritar um ovo, Julia Child casou-se e, residindo temporariamente em Paris por conta do trabalho de Paul, seu marido-gourmet (naquela época era "esposo", não?), decidiu enfrentar a cozinha e matriculou-se na centenária Le Cordon Bleu. Estava dada a partida para o seu estrelato na frente das câmeras e atrás do fogão: Julia comandou o
The french chef , um tremendo sucesso da telinha. O segredo? Ela dá a primeira resposta: "A cozinha francesa é simplesmente um maravilhoso jeito de tratar a comida".
Senão, vejamos: estamos na América de 40 anos atrás - um país que começava a se preocupar com a obesidade nos dois gêneros e em dois níveis (estéticos e dietéticos). É o período, segundo o sociólogo
Harvey Levenstein, do boom dos produtos "diet" e "calorie-reduced" entre os homens (principalmente os da classe média), o da contra-cultura (comidas naturais, sem pesticidas etc.), da vitamino-mania. Talvez a coisa toda tenha ficado tão insossa que as classes mais abastadas voltaram a atenção e o paladar para a cozinha francesa - uma espécie de "revival" do gosto e da comida fina como símbolo de status, tal como na virada do século 20.
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É nesse cenário — que inclui ainda "novidades" como panelas de Teflon e modernas máquinas de lavar-louça domésticas - que surge Julia e seus ensinamentos de cozinha francesa que, segundo ela, é lógica, simples e boa. Em 1961, Julia publica
Mastering the art of french cooking, em parceria com as francesas Louisette Bertholle e Simone Beck — em seu quinto ano, o livro virou um fenômeno de vendas: quase 300 mil cópias. Em 1963, suas receitas estrearam em preto-e-branco e em 1966 já cruzavam de uma costa a outra dos EUA por meio de 104 emissoras de TV. Parece que foi o primeiro programa educacional (isso mesmo) a ganhar um Emmy. "Se Julia menciona wafers de baunilha, as prateleiras dos supermercados esvaziam-se da noite para o dia", diz a reportagem. Todos cozinham com Julia... Ela também tinha jeito prá coisa: "Todas as mulheres deviam beijar seu açogueiro", ensinava. Se errasse - o que acontecia frequentemente - dizia: "Nunca se desculpe" ou "o molho ficará ainda melhor assim".
Quis ser jogadora de basquete e escritora. Fumava, trabalhava 13 horas diárias na produção do programa (o primeiro de muitos, que surgiram nas três décadas seguintes) e, preparando brioches e croissants, ficou tão famosa quanto James Beard — o "rei dos gourmets", que vendera 500 mil cópias de seus 14 livros e que "levou mais homens à cozinha antes de Child". "Há tantos pratos franceses maravilhosos que acho que não vou viver o bastante para fazê-los todos", disse à
Time. Julia morreu em 2004 (o que ainda dará pano prá manga, ou melhor, mais posts neste blog).
Voltando à Julie e seu blog-que-virou-livro-que-virou-filme: a texana Julie, com 30 anos, mora no Queens (NY), trabalha como secretária e foge da monotonia ao criar o projeto Julie/Julia. Promete bastante humor e muitas receitas — Julie é (como já começaram a apelidá-la) uma espécie de Bridget Jones, só que das panelas. É esperar e conferir.