terça-feira, 29 de junho de 2010

Um Baron para o pato no tucupi



O casamento de barreado com vinhos quase pareceu brincadeira de criança perto de um poderoso pato no tucupi, o segundo desafio à harmonização da turma de enófilos - ainda sem nome - que, a partir de um acaso, passou a levar adiante a tarefa de "quebrar paradigmas" de casamentos entre vinho e comida, como gosta de dizer o amigo Álvaro Cézar Galvão, do blog Divino Guia.

Pois bem. Naquela terça-feira, 16, embalados pelos jogos da Copa que estreava e acomodados à mesa do Tordesilhas, o lugar oficial das nossas degustações, abrimos os trabalhos (para conhecer a turma de experts e blogueiros, confira meu post anterior; neste, houve uma substituição em campo: saiu João Filipe Clemente, entrou Breno Raigorodsky. Tudo começou com um magnífico tacacá.


Prato popular da região norte, o tacacá é servido em cuias nas ruas, ao redor dos mercados de Belém e Manaus, geralmente às cinco, numa espécie de "chá da tarde". Leva tucupi (o suco da mandioca brava), jambu (erva amazônica que tem a particularidade de amortecer a língua), camarão seco e goma de mandioca - esta, diluída em água e engrossada ao fogo, faz a base do tacacá.

Para acompanhá-lo, foi servido um sauvignon blanc Framingham 2008, da Nova Zelândia (88/100 pontos, segundo Jeriel da Costa). A mineralidade do vinho e a fruta muito presente conferiram ao prato um frescor agradável. E é aí que começa a delícia da harmonização, em que a única regra é a de que ela sempre podem ser quebrada e o que prevalece é dissenso.

As opiniões, portanto, se dividiram diante daquilo que é a tarefa mais complicada: o que combinar com o tucupi, o produto-chave da harmonização, mas que ainda enfrenta "barreiras culturais", que é pouco catalogado na memória de boa parte dos degustadores, e cujo perfil de sabor é ainda intrigante porque potente, selvagem, ácido... Para alguns, como o colunista da Prazeres da Mesa Maurice Bibas, um destilado seguraria melhor o prato. Para outros, o prato permanece na boca muito além do vinho. Eu fiquei na primeira turma - a do "frescor".

A parte mais difícil, porém, estava por vir. Onze garrafas, de várias nacionalidades e estilos, aguardavam a chegada do pato no tucupi. Ei-las:

Brancos e rosés
1. Jean Luc Colombo Pioche et Cabanon Rosé, Rhône, França (Decanter)
2. Cordilheira de Sant’anna Gewürztraminer 2008, Campanha Gaúcha, Brasil (Eivin)
3. Avondale Chenin Blanc 2009, Paarl, África do Sul (Vinhos do Mundo)
4. D’Arenberg The Dry Deam Riesling 2008, McLaren Valley, Austrália (Zahil)

Tintos
5. Chateauneuf-du-Pape Xavier 2006, Rhône, França (Cantu)
6. Don Laurindo Tannat 1999, Vale dos Vinhedos, Brasil
7. Marson Gran Reserva Cabernet Sauvignon 2002, Cotiporã (Serra Gaúcha), Brasil (Eivin)
8. Rocca Maura Les Cepages Merlot/Cabernet Sauvignon 2007, Rhône, França (Torres)
9. Avondale Pinotage 2008, McLaren Valley, África do Sul (Vinhos do Mundo)
10. Dal Pizzol Assemblage 35 anos (Merlot/Cabernet Sauvignon/Cabernet Franc/Ancelotta 2009, Vale dos Vinhedos, Brasil
11. Baron de Lantier 1991 (Cabernet Sauvignon), Brasil (reserva pessoal)


O pato no tucupi é outro clássico do Norte, prato festivo, feito em ocasiões como a festa religiosa do Círio de Nazaré. Mara Salles conta seu preparo: o pato é marinado durante mais de 12 horas e depois cozido no molho do tucupi com a chicória (erva amazônica) e o jambu. É servido com farinha-d´água e pimenta-de-cheiro do Pará.

A meu ver, houve basicamente duas lógicas distintas na escolha do vinho pelos participantes: um vinho branco com alto teor de acidez, para combinar por similaridade com a acidez do tucupi e do jambu (esta foi a minha escolha). E a outra era a de vinhos tintos já maduros, que não tivessem muito tanino, mas com boa fruta e álcool que lhe desse estrutura para aguentar a carne. Carne, aliás, de sabor delicado, pelo tratamento ao qual foi submetida, como bem lembrou Maurice.

A segunda lógica levou a taça: o campeão, para felicidade geral da torcida, foi o Baron de Lantier 1991, uma ícone brasileiro, feito por um enólogo argentino, Adolfo Lona, nos anos 1980, quando nem se falava em vinho nacional. Beto Duarte, Álvaro Galvão e Walter Tommasi reproduzem detalhadamente os processos de elaboração deste vinho, enviado por email pelo próprio Lona ao confrade Agilson Gavioli, o dono do vinho vencedor. Só uma palhinha: a safra, 1991, foi uma das melhores da história do país e as barricas novas onde o vinho descansou, francesas e já "montadas", foram as primeiras a chegar no Brasil. Sua nota média de harmonização: 7,6.

Mas a outra lógica não se mostrou incorreta: o Chenin Blanc sulafricano (uva que lá recebe o nome de Steen) levou o segundo lugar no ranking, empatado com outro tinto brasileiro, o Marson Gran Reserva. Vejamos o que a próxima nos reserva. Até lá!

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Barista campeão mundial é americano


O barista Michael Phillips, do Intelligentsia Coffee & Tea, nos Estados Unidos, venceu esta tarde o 11º Campeonato Mundial de Baristas (World Barista Championship 2010) na cidade de Londres. Dos 52 competidores, nesta que é a maior competição do mundo na categoria, saíram 12 semifinalistas. Entre eles estava Yara Castanho, da Suplicy Cafés Especiais, bicampeã brasileira, que no ano passado havia conquistado a 18ª colocação no mundial (nossa melhor posição foi o 6º lugar, com Silvia Magalhães, em 2007). A competição aconteceu entre os dias 23 e 25 de junho, no Olympia Exhibition Centre.

A pontuação dos baristas ainda não foi divulgada oficialmente, mas meus amigos da Espresso, Caio Fontes e Marcos Haddad, que acompanharam a competiçao in loco, já divulgaram os resultados no portal da revista, de onde extraio o placar abaixo:

1 - Michael Phillips - Estados Unidos (706 pontos)
2 - Raul Rodas - Guatemala (691 pontos)
3 - Colin Harmon - Irlanda (672,5 pontos)
4 - Scottie Callaghan - Austrália (659,5 pontos)
5 - Soren Stiller Markussen - Dinamarca (644,5 pontos)
6 - Stefanos Domatiotis - Grécia (632 pontos)

Assim como nas competições nacionais, que seguem o seu modelo, na competição mundial o barista tem 15 minutos para apresentar a 4 juízes sensoriais (e 2 juízes técnicos), 4 espressos, 4 cappuccinos e 4 bebidas de assinatura com café (mas sem álcool).

Mais três brasileiros foram a Londres este ano: Marco de La Roche, que representou o Brasil pela segunda vez na categoria Coffee in Good Spirits; Carolina Franco (Lucca Cafés Especiais, de Curitiba), na categoria Cup Taster; e Felipe Oliveira (também do Lucca Cafés Especiais), na competição de Latte Art.

Carolina teve 6 pontos (de um total de 8) e ficou em 11º na classificação geral (ao todo, foram 38 participantes). Marco de La Roche, com 22 pontos, levou o 7º lugar (num total de 26), e Felipe Oliveira ficou com a 24ª colocação (de 33 competidores).

O Campeonato foi transmitido pela internet ao vivo. A competição do ano que vem será na cidade de Bogotá, na Colômbia.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Goles sul-africanos

Vinhedos da Nederburg, vinícola oficial da Copa, em Stellenbosch

Ano recebendo diversas mensagens de importadoras com suas respectivas seleções de vinhos da África do Sul. Recentemente, a minha (nova) confraria faz uma degustação de vinhos brancos sulafricanos, comandada pela Alice Steyn, uma sulafricana que estudou enologia no país. Foi uma bela apresentação, mas o mais interessante é que o vinho "vencedor" custa baratíssimo. É preciso esclarecer, antes, que a votação dos confrades segue um critério de gosto, já que num painel deste tipo, mais amplo e que pretender dar a conhecer a variedade de estilos, não se pode comparar o incomensurável - Sémillon com Chardonnay ou Sauvignon Blanc.

Abaixo, segue a lista dos vinhos que degustamos. Também provamos ontem, no curso de sommeliers da ABS, dois exemplares muito bem elaborados (os números 6 - o mesmo da degustação com os confrades - e 9 da lista). Vale a pena provar, ainda, o vinho de sobremesa (número 10 da lista). Também aproveito o ensejo da Copa e reproduzo, aqui, a matéria que fiz para a revista Menu, que me enviou para essa missão tão especial que foi visitar África do Sul e provar diversos dos seus vinhos (além de andar de balão e montar um elefante, coisas que se faz uma vez só na vida!). E que vençamos no domingo!

1. Fleur du Cap Sauvignon Blanc 2008 (Casa Flora, R$ 54,49)
2. Stellenzicht Golden Triangle Sauvignon Blanc 2008 (World Wine, R$ 57)
3. Nederburg Twenty 10 Sauvignon Blanc 2009 (Casa Flora, R$ 31,20)
4. Pecan Stream Chenin Blanc 2007 (Waterford State, sem importação no Brasil)
5. Klein Constantia Mme Marlbrook 2004 (Expand, R$ 89)
6. Steenberg Sémillon 2006 (Expand, R$ 79)
7. Oracle Chardonnay 2008 (Pão de Açúcar, R$ 27)
8. Vergelegen Chardonnay Reserve 2004 (Expand, esgotado)
9. Kanonkop Wine State Pinotage 2007 (Mistral, US$ 65,50)
10. Nederburg Noble Late Harvest 1998 (Casa Flora, R$ 94,15, 375 ml)



Goles sul-africanos

Para os produtores de vinhos da África do Sul, a Copa do Mundo de 2010 servirá como uma grande vitrine dos tintos e brancos elaborados no país-sede do campeonato. A estimativa é que, no ano da copa, cerca de 10 milhões de pessoas visitem o país. A fama dos vinhos sul-africanos, entretanto, não é de hoje. Depois de períodos difíceis, a indústria vinícola ganhou novo fôlego na década de 1990, com o fim da política de segregação racial do Apartheid.

A África do Sul é o país mais antigo na produção de vinhos fora da Europa. Os primeiros vinhedos foram plantados em 1655, com a colonização holandesa, e o mercado desenvolveu-se com a chegada dos calvinistas franceses e suas técnicas de elaboração da bebida a partir de 1680. Os vinhedos, então, espalharam-se pela região banhada pelo Atlântico, ao redor da Cidade do Cabo, atual capital legislativa do país. No final do século 18, tornou-se famoso no mundo inteiro o vinho de Constantia: a bebida doce, elaborada com a uva branca moscatel, encantou a corte européia e personalidades como Napoleão Bonaparte e o poeta francês Charles Baudelaire. Na década de 80, o vinho voltou a ser produzido no país pela tradicional vinícola Klein Constantia.

Os séculos 18 e 19 foram conturbados para o cenário vitivinícola sul-africano — culminando com a praga phylloxera, que dizimou os vinhedos europeus, atravessou o oceano e atacou também as uvas do país. As cooperativas, criadas nos anos 1920, ajudaram a estabilizar a indústria de vinhos, sem preocupar-se, entretanto, com a qualidade das bebidas. Com o fim do Apartheid, os vinhos da “nação arco-íris” modernizaram-se, ganharam complexidade, refinamento, investimentos e consultoria de enólogos estrangeiros, estabelecendo-se no mercado internacional.

Em 2007, o país contabilizou 101 mil hectares de uvas plantadas, a maior parte delas concentrada nas regiões de Stellenbosch, Franschoek e Paarl, onde estão as vinícolas mais tradicionais. Ao todo, as cerca de 560 vinícolas do país — muitas delas com bela arquitetura colonial holandesa — produziram 730 milhões de litros em 2007, o que faz da África do Sul o 9º produtor mundial.

Assim como o Chile e a Argentina — que têm como uvas-símbolo, respectivamente, as francesas Carmenère e Malbec —, o país também possui uma uva emblemática, a típica Pinotage. Fruto de um cruzamento entre as uvas Pinot Noir e Cinsaut (antigamente conhecida como Hermitage), a Pinotage foi desenvolvida no país em 1925, e produzida comercialmente a partir da década de 1960. Tinta, escura e rústica, a Pinotage é motivo de controvérsias entre os enólogos. “Como pode ser elaborada em vários estilos, é uma uva complexa, difícil de compreender. Uns a amam, outros, a odeiam, embora sua aceitação internacional esteja crescendo”, explica Rasvan Macici, enólogo da Nederburg, em Paarl, um dos fãs da cepa. “Por isso, muitos produtores preferem elaborar vinhos mais fáceis de vender”, analisa.

A proporção de uvas plantadas na África do Sul é um dos indicadores das recentes apostas de seus enólogos. A internacional Cabernet Sauvignon ganhou espaço nos últimos dez anos: atualmente, é a tinta mais plantada, ocupando 12,8% dos vinhedos, seguida de Shiraz (9,7%) e da Merlot (6%). No mesmo período, a Pinotage se manteve estável (6%). “A Shiraz tem sido a grande beneficiária dessa tendência, embora a Cabernet seja a tinta mais popular”, avalia Macici.

É com a Cabernet Sauvignon, portanto, que o enólogo da Nederburg, elaborou os vinhos oficiais da Copa do Mundo. O Twenty 10, que está na fase de definição de seu rótulo, chega ao mercado sul-africano em 2009 e, depois, às prateleiras do Brasil e de países como Bélgica, Alemanha e Canadá. São três versões do vinho: um branco, feito com a Sauvignon Blanc, uva que tem rendido bons goles no país, um rosé e um tinto, ambos feitos com a Cabernet.

O Twenty 10 é uma das promessas para alavancar as vendas de rótulos sul-africanos no Brasil, que recebe 0,8% dos vinhos exportados pelo país. “Com o advento da Copa, esperamos dobrar as vendas no Brasil”, diz Linley Schultz, enólogo-chefe da Distell, um dos maiores grupos vinícolas do mundo, ao qual pertence a Nederburg.

E renderá bons goles para os que visitarem a África do Sul a partir do ano que vem – quer seja para assistir ao mundial ou para curtir safáris e prais paradisíacas, outros bons atrativos do país.


Meu primeiro leilão

Os jardins que circundam a vinícola Nederburg transformaram-se, em setembro, num imenso tapete vermelho. Por ele, desfilaram homens e mulheres elegantes atrás dos melhores goles sul-africanos que, durante dois dias, seriam arrematados no famoso leilão de vinhos do país. Vendidos em pequenas quantidades, os vinhos leiloados não estão disponíveis no mercado. São raridades, como o Monis Port 1948, respeitado vinho fortificado sul-africano, ou novidades, como as últimas safras dos vinhos brancos, bastante apreciados pelos enófilos.

O evento, que acontece anualmente nesta tradicional vinícola de Paarl, está em sua 34ª edição e atraiu este ano compradores de 15 países. O leilão de Nederburg, um dos cinco mais importantes do mundo, funciona como uma espécie de termômetro, regulando o preço dos rótulos que entrarão no mercado. Nem mesmo a inflação que atinge a economia sul-africana desde 2005 foi suficiente para tirar o brilho do evento, que arrecadou 4,7 milhões de rands (o equivalente a 1 milhão de reais, 10% abaixo do ano anterior), mas registrou um aumento no número de participantes.

A cada rodada, Stephan Welz, que também é leiloeiro da Sotheby’s, anuncia com voz contundente o preço mínimo de um dos 171 lotes deste ano. Entre os compradores, lá estava eu, acompanhada de um grupo de brasileiros amantes do vinho. Nossa disputa pelo lote com 24 garrafas do Edelkeur 1977, um delicioso vinho de sobremesa da Nederburg provado no evento, foi emocionante. As garrafas ainda não chegaram, mas ao serem abertas, trarão de volta o gosto doce do meu primeiro leilão de vinhos.


Reportagem publicada na revista Menu (dezembro/2008)

quarta-feira, 9 de junho de 2010


Carolina Gherardi
Não pude ir à festa da Prazeres da Mesa (estava numa degustação via twitter, o 1º Twitter Tasting da América do Sul, que pode ser conferida no blog do meu amigo Beto Duarte), mas segue a lista dos vencedores do Prêmio Melhores do Ano Prazeres da Mesa/Bohemia de 2010, anunciados ontem à noite, no Vila Über, em São Paulo. Ao todo, foram 16 categorias votadas. Só dois comentários: 1. categoria "artesão da gastronomia"? Produtor, né? 2. Adoro o prêmio "responsabilidade social na gastronomia". Está mais do que na hora de olharmos para além daquilo que acontece à mesa.

Chef do ano
Roberta Sudbrack (Roberta Sudbrack, Rio de Janeiro)

Chef revelação

Eudes Assis (Seu Sebastião, Maresias)

Restaurante do ano
Maní (São Paulo)

Sommelier
Daniela Bravin (Ici Bistrô, São Paulo)

Bar do ano
Bottagalo (São Paulo)

Barista do Ano
Yara Castanho (Suplicy Cafés Especiais, São Paulo)

Restaurante de cozinha brasileira

Mocotó (São Paulo)

Banqueteiro
Carlos Bertolazzi (C.U.C.I.N.A, São Paulo)

Brigada de ouro
Fasano (São Paulo)

Artesão da gastronomia

Companhia das Ervas (ervas e temperos)

Barman
Marcelo Vasconcellos (Pandoro, São Paulo)

Casa especializada
Maria Brigadeiro (São Paulo)

Chef pâtissier
Marcello Magaldi (Buffet Fasano, São Paulo)

Personalidade da gastronomiaVicente La Pastina

Responsabilidade social na gastronomiaInstituto Maniva

Personalidade do vinho

Manoel Beato (Fasano, São Paulo)

Café no Estantes e Panelas

terça-feira, 25 de maio de 2010

Virada Beneficente (com vinhos chilenos)


O terremoto que atingiu o Chile em 27 de fevereiro deixou um saldo enorme de vítimas. O flyer abaixo comunica um evento em São Paulo, com duração de 53 horas ininterruptas, para angariar fundos às vitimas do terremoto. Um dos principais patrocinadores é a gigante Concha y Toro. Assim, entre as tantas atividades, a partir do dia 28 de maio virá a São Paulo o enólogo da Don Melchor, Enrique Tirado, que participará de algumas jornadas, como degustação de vinhos e, também, comandando um leilão de 1 garrafão de Don Melchor de 9 litros, da safra 2003. Os detalhes estão no site da Virada Beneficente. Vale lembrar, também, que o terremoto acabou com vinhedos e destruíu vinícolas, prejudicando muitos produtores de vinhos do país. Muitas notícias tentaram minimizar os estragos, que parecem ter sido maiores. Quando formos comprar vinhos, então, que tal escolher entre tintos e brancos chilenos?

sábado, 22 de maio de 2010

O dia em que o barreado encontrou o vinho


A coisa começou numa conversa à toa. Numa degustação de vinhos portugueses, numa mesa cheia de especialistas, eu disse que meu prato brasileiro preferido era o barreado (cozido de carne paranaense, guarnecido com farinha de mandioca e banana-da-terra ou nanica grelhada ou crua). Alguém levantou a bola: e barreado, combina com que vinho? Depois de algumas considerações, o veredicto foi: vamos provar prá ver. E foi assim que, no dia 20 de maio, essa turma reuniu-se no restaurante Tordesilhas para fazer "a prova do barreado".


Estavam lá (em sentido horário na foto),Ivo Ribeiro (sócio do Tordesilhas), Agilson Gavioli (enófilo e idealizador do encontro de vinhos “Vamos à Montanha”, em Campos do Jordão), Walter Tommazi (da Free Time Magazine), Álvaro Cézar Galvão (blog Divino Guia), João Filipe Clemente (blog Falando de Vinhos), Jeriel Costa (Blog do Jeriel), e Beto Duarte (blog Papo de Vinho). O que eu estava fazendo lá (e tirando a foto)? Bom, eu dei a ideia e organizei o encontro - e, com isso, tive a oportunidade de aprender sobre harmonização com essas feras. Um ratinho entre leões.

Cada um de nós levou um vinho (os mais empolgados, mais de um), cuja lista está abaixo, e o restaurante preparou o prato (cuja história está no final deste post).

- Muros de Melgaço (Anselmo Mendes, Minho, Portugal)
- Terranoble Pinot Noir Reserva 2008 (Terranoble, Valle de Casablanca, Chile)
- Além-Mar (Villagio Grando, Santa Catarina, Brasil)
- Lídio Carraro Grande Vindimia Merlot 2004 (Lídio Carraro, Encruzilhada do Sul, Brasil)
- Albariño Pazo Pondal 2006 (Pazo Pondal, Rías Baixas, Espanha)
- Dadivas Pinot Noir (Lídio Carraro, Encruzilhada do Sul, Brasil)
- Barbera d'Asti 2006 (Michele Chiarlo, Piemonte, Itália)
- Pizzato Reserva Merlot 2005 (Pizzato, Vale dos Vinhedos, Brasil)
- Don Laurindo Reserva Estilo 2008 (Don Laurindo, Vale dos Vinhedos, Brasil)
- Domínio Vicari Riesling 2008 (Domínio Vicari, Vale dos Vinhedos, Brasil)
- Valllontano Tannat 2005 (Vallontano, Vale dos Vinhedos, Brasil)
- Brazilian Soul (Aurora, Serra Gaúcha, Brasil)
- Chardonnay Utopia 2009 (Quinta de Santa Maria, São Joaquim, Brasil)


Antes da grande prova, o restaurante preparou petiscos (pasteizinhos de carne e de queijo), que foram degustados com o penúltimo vinho da lista (um espumante demi-sec) e uma deliciosa abobrinha (de pescoço) marinada em vinagre, azeite, pimenta-cheirosa do Pará e dill (que combinamos com o Chardonnay, o último vinho da lista, que não passou por barrica).


Vale também alguns comentários antes de dar o resultado final da prova. Em primeiro lugar, harmonização é um dos temas mais controversos e difícieis no mundo do vinho. Harmonizações clássicas, como foie gras e Sauternes, já estão consagradas e nem levantam discussões, o que não acontece com outras situações, como a que envolve pratos brasileiros - ainda há muito a explorar sobre os casamentos entre nossa comida e os vinhos, e esta é a razão principal pela qual todos estavam lá reunidos. É um caminho longo e instigante, e sem preconceitos: há quem ainda considere que os vinhos brasileiros não merecem muito crédito (o que todos neste encontro discordam vivamente, inclusive eu, que pude, recentemente, rever meus conceitos, formulados em cima de pouca experiência, sobre a produção nacional).

A seleção de vinhos acima mostra bem as intenções do grupo:

1. Tentar promover "casamentos arranjados" - termo que ouvi do sommelier Manoel Beato, creio que cunhado por Joanna Simon, grande especialista britânica em harmonização, que define as harmonizações entre pratos e vinhos de uma mesma região;

2. Combinar o prato com vinhos de outros países, que é uma tendência atual;

3. Optar por rótulos brasileiros menos manjados e conhecidos (e mais difíceis, talvez, de serem bem sucedidos na combinação, o que não aconteceria, talvez, com um Talento, da Salton). Exemplo: O vinho Além-Mar, da Villagio Grando, uma amostra de barrica em garrafa ainda sem etiqueta (será lançado em alguns meses no mercado), feito em São Joaquim (SC), uma das novas apostas em terroirs brasileiros (por motivos como as altas altitudes, que originam vinhos mais complexos). Este é feito com o auxílio do enólogo português Antonio Saramago e parte de sua produção irá para Portugal (daí o nome). Ou o Riesling da Domínio Vicari, de vinhedos de Pinto Bandeira (distrito de Bento Gonçalves), pisado só por mulheres e vinificado na Praia do Rosa, onde fica a vinícola, sem (assim garantem os produtores) SO2 - utilizado como proteção em todos os vinhos, inclusive biodinâmicos.

4. E o mais importante: a intenção de quebrar paradigmas, escolhendo vinhos brancos (como o exemplo acima) para combinar com carne, por exemplo.



Os blogs dos meus companheiros acima linkados são uma ótima fonte para quem quiser saber os detalhes de cada combinação. De minha parte, posso dizer que, mais intuitiva do que tecnicamente, os vinhos que achei que melhor casavam com o barreado foram os mesmos eleitos pelo grupo (com exceção de um). Ganhei meu dia. Eu só segui alguns princípios básicos de harmonização, como o de que o vinho nunca pode se sobrepor ao prato e vice-versa. Nessa linha, por exemplo, o delicado Dádivas transformou-se num suquinho de uva confrontado com o barreado. Pode-se argumentar: é um Pinot Noir, uva delicada para um prato potente como um barreado (eu particularmente, acho o barreado do Tordesilhas de uma delicadeza ímpar). Por outro lado, um dos vencedores foi justamente um Pinot Noir, mais complexo e estruturado, da Terranoble.

Pela quantidade e diversidade de rótulos, a prova foi dividida em quatro baterias: primeiro os tintos de caráter mais leve, depois os brancos, depois os tintos mais potentes e, por fim, os tintos Reserva. O resultado deu branco na cabeça: o vinho mais votado foi o Alvarinho Muros de Melgaço, um dos grandes vinhos verdes de Portugal. Atrás dele, o Pinot Noir chileno. A lista de vinhos acima elenca os cinco primeiros colocados, em ordem de preferência.

Foi uma experiência deliciosa, com um resultado surpreendente. O que significa que, mês que vem, faremos mais uma rodada (o que não rende uma conversa à toa...). Aguardem.

A história do barreado (fornecida pelo Ivo Ribeiro, com pitacos meus)

Barreado é um prato típico do Paraná, especificamente da região de Morretes, uma pequena cidade histórica litorânea, próxima ao porto de Paranaguá, cujo acesso, pela Estrada da Graciosa e a partir de Curitiba, é um dos passeios mais lindos do estado (é este o meu pitaco). A chegada do barreado é atribuída aos açorianos, que povoaram boa parte do Sul do país. sua técnica de cocção, originalmente, é feita em fornos subterrâneos, técnica de preparo utilizada por diversos povos antigos, como os da Polinésia, da África e das Américas.

Os pesquisadores apontam dois processos principais de cozimento subterrâneo. Um deles, mais primitivo (outro pitaco meu: não gosto deste termo, cheio de conotação negativa, mas amplamente usado. prefiro antigo), atribuído aos polinésios e aos índios caiapó e jê de minas Gerais, consiste numa cavidade aberta, aquecida por brasas ou pedras sob fogo, onde o alimento, coberto por folhas ou colocado num recipiente, é cozido pelo calor. O segundo implica em colocar oa comida numa cova aquecida, cobri-la com folhas e terra e acender sobre ela um novo fogo.

O barreado é um prato de preparo demorado - de 12 a 24 horas -, muito comum em datas festivas no início do século passado. Entre elas destacava-se, particularmente, o entrudo (nome dado ao carnaval na época), quando as donas de casa colcoavam a carne para cozinhar numa panela de barro fechada e a enterravam sob uma fogueira. Acabada a farra, o prato estava pronto. O nome barreado vem do fato de que, originalmente, as panelas eram seladas com barro, ou seja, barreadas. Atualmente, o barreado é uma das principais atraçoes turísticas de Morretes, e está presente em todos os restaurantes da cidade. Hoje, é claro, não se cozinha em fornos subterrâneos, mas sobre chapas de ferro sobre uma fonte de calor, e nem se sela a panela com barro, mas com uma mistura de farinha de mandioca e água. Mas seu sabor continua sendo, para mim, inigualável, e o que me traz as melhores lembranças - talvez por isso seja o meu preferido: tão importante quanto o gosto é a memória a ele relacionada - a dos meus 18 anos, um grupo de amigos especiais em torno da mesa, um trajeto até a cidade espetacular, um país imenso por descobrir... De quebra, o prato ainda aquece o corpo e conforta a alma.