quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Os mangaritos da Roberta Sudbrack


Minha chegada ao Rio de Janeiro não teve aquela visão idílica da natureza pela janela do avião - a noite já caia sobre a ex-capital do império. Mas, no dia seguinte, a cidade que eu não visitava há tempos amanheceu e anoiteceu bonita - ou será que era apenas a minha expectativa em conhecer o restaurante da Roberta Sudbrack (é verdade, eu ainda não conhecia...)?



Cheguei cedo, sentei-me numa mesa de canto, embalei no som de Carmem Miranda e repassei tudo o que eu sabia dela - em reportagens, no seu interessante blog, no twitter que ela não abandona nem por um dia, em sua recente aparição em Sampa no evento Estantes e Panelas. E me lembrei da entrevista que fiz para a Folha, quando ela ainda era a cozinheira do presidente e estava lançando seu primeiro livro, Uma chef, um palácio. Mas ela, agora, é a Roberta Sudbrack, e a minha noite em seus domínios foi memorável.


Roberta trabalha com dois menus-degustação: de 5 e 8 pratos, que mudam diariamente, de acordo com o que ela encontra de melhor. Sua carta de vinhos, ao contrário, tem páginas e mais páginas, com bons exemplares nacionais e um acento marcadamente francês - preferência, talvez, de seu autor, o cineasta e sommelier Jonathan Nossiter, francês de criação e fascinado pelos pequenos produtores. E o desfile começou tão logo o espumante, um dourado Casa Valduga 130 Anos Reserva Especial, foi servido.

Courgères de queijo gruyère: macias e delicadas

Um a um, pratos de apresentação delicadíssima e sabor profundo chegaram à mesa, numa prova agora in loco da cozinha madura, generosa e sem rodeios da chef, incansável na busca de uma nova "linguagem para o ingrediente", como ela mesmo gosta de dizer. Uma cozinha de reflexão, diriam os vanguardistas. Uma cozinha cheia de paixão pelo Brasil, eu ajuntaria. E, particularmente, pelos vegetais - abóbora de sabor contundente, chuchu valorizado, quiabo virado do avesso, maxixe dissecado... estavam todos lá, exemplares de suas experiências anteriores, que eu acompanhei pelas publicações e que viraram verdadeiros estandartes de seu trabalho.

Tartare de abóbora, feito com abóbora, suas sementes e gengibre: um sabor fresco e profundo


Acima, um dos grandes pratos da noite: quiabo defumado em camarão semicozido. A untuosidade do azeite, fresquíssimo, a crocância das sementes do quiabo, a delicadeza do camarão e a maciez do legume fizerem dele um prato sublime! Depois de estudado à exaustão, Roberta conseguiu concentrar a baba do quiabo, que não é senão uma gelatina, e aprisioná-la dentro das sementes. Para acompanhá-lo, foi servido um vinho branco português da Bairrada, da vinícola Frei João, elaborado especialmente para o restaurante. "Ele vem em galões de 5 litros, explica Roberto, seu sommelier. Um vinho aromático, fresco, ligeiro e de acidez agradável.

Na sequência, chegou o caneloni de atum com tartare de chuchu. O sabor do chuchu, aqui em cubinhos e al dente, tem uma finesse marcante. Para desbancar os que pensam que chuchu não tem gosto, ele permanece presente por vários minutos depois da degustação. O princípio para a compreensão do chuchu como um ingrediente cheio de possibilidades é simples: "O chuchu tem muita água, e, se ele é feito num ensopado, todo o sabor se dissipa", ela não cansa de ensinar, deslocando-o para outros preparos.

Ravióli de filé curado com marmelada de maxixe: extrema doçura

E, felicidade de qualquer jornalista, a estreia, naquela noite, do mais novo prato da coleção 2009: ravióli amanteigado de mangarito em três texturas... "Você foi a primeira a experimentar", ela me confidencia, mandando descer, depois, os mangaritos in natura, que conhecera através da chef Mara Salles, do Tordesilhas (SP). O ravióli, suave, serve praticamente como invólucro do sabor dominante e inquietante do mangarito, que no recheio, traz à tona uma doçura intensa e uma textura levemente farinácea muito agradável. Sobre ele, surgem lascas fritas e salgadinhas, e outras mais escuras, feitas de sua casca tostada, cujo sabor tem um toque selvagem emocionante. É, até agora, a versão preferida da chef. "A cozinha ficou perfumada com seus aromas de café e chocolate", vibrava Roberta, que anunciou, no Twitter, a chegada desses pequenos tubérculos praticamente desaparecidos de nossas terras - parece que apenas um produtor tem se dado ao trabalho de recuperá-lo.


Depois de uma deliciosa codorna com escarola defumada e batatas croustillantes, que remeteram diretamente às minhas mais agradfáveis lembranças no interior, uma bela fatia de queijo Canastra, um delicioso queijo artesanal curado, produzido no sudoeste de Minas, cheio de eprsonalidade. Tudo banhado ao tinto Frei joão, também elaborado especialmebnte para a casa.


No final, uma sobremesa aveludada na boca, feita de chocolate amargo em consomê, com pele de leite e rapadura. Para voltar, muitas e muitas vezes.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

São Paulo Bom de Mesa


Namorado ao molho de azedinhas

Volto do Rio e eis que me deparo com um festival de um chef carioca em São Paulo. O evento São Paulo Bom de Mesa, promovido pela Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança, traz Thomas Troisgros ao restaurante Marcel, comandado por Raphael Despirite, de hoje a 13 de agosto. O menu do chef do 66 Bistrô custa R$ 89 por pessoa, e oferece carpaccio de shiitake fresco, azeite e parmesão, namorado crocante ao molho de azedinhas e cheesecake com acento brasileiro.

Cheesecake brasileiro

Restaurante Marcel (rua da Consolação, 3.555, Jardins, são Paulo, 11/3064.3089)

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Pequenas delícias



Alguns meses atrás, cheguei em casa e encontrei uma bela caixa cheia de delicados docinhos. Quem havia mandado os mimos, com todo o cuidado, era o Bruno Kenzo, da Kykah Doces Artesanais. Formado em turismo pela Anhembi Morumbi, Kenzo partiu para uma temporada na Austrália e, na volta, passou pelo antigo restaurante do chef Adriano Kanashiro (By Adriano Kanashiro) e pelo D.O.M. Ele chegou até mim por um conhecido em comum, o Flávio Miyamura, chef do Eñe, com quem mantive contato regular na época em que ele era o "Japa", do extinto programa Mesa pra Dois, e eu, responsável pela coluna do Alex Atala na revista Monet (sim, a bem sucedida coluna do Atala na revista Prazeres da Mesa teve seu embrião ali).

Brigadeiro dourado

Enfim, depois de provar aquelas pequenas delícias, havia pensado em fazer uma reportagem com Kenzo e sua mãe, a Kykah Oniytsuka, uma ex-analista de sistemas que resolveu iniciar na profissão fazendo doces para o Ano-Novo judaico, há mais de 10 anos. Atualmente, a dupla se concentra em eventos. Nesse meio tempo, saí da revista menu, mas não esqueci do sabor dos docinhos da Kykah, muitos deles com traços bem brasileiros: a hóstia com recheio de coco, a casquinha de chocolate meio-amargo, a uva camuflada e o incrível brigadeiro dourado (bom, eu a-d-o-r-o brigadeiro). Reparem o capricho e a delicadeza (bem japonesa) dos doces acima. Os contatos da dupla, e outras imagens, estão no site da Kykah.

domingo, 2 de agosto de 2009

Brasil e seu vinho de gelo


Uvas congeladas em Okanagan Valley, no Canadá, que produz ice wine

O site da revista Decanter noticiou, há pouco, a produção do primeiro ice wine no Brasil. Por conta das baixas temperaturas que caíram sobre a região de São Joaquim, em Santa Catarina, a vinícola Pericó produzirá o vinho de gelo, que pretende exportar em outubro do ano que vem.

Os ice wines (ou eiswein, em alemão) são vinhos doces, produzidos com uvas congeladas no pé. Os açúcares e outros sólidos não congelam, mas a água sim, o que permite que as uvas fiquem mais concentradas e o vinho, mais doce. Especialistas atestam que eles costumam ser refrescantes, com boa acidez (eu provei apenas uma vez, mas não era dos melhores, portanto...). Saem ao mercado em pequena quantidade e caros.

A vinínola catarinense está utilizando uvas Cabernet Sauvignon colhidas em seus vinhedos, localizados na fazenda Menino Deus, no Distrito do Pericó. A região está situada a 1.300 m do nível do mar e os termômetros, no começo de junho, chegaram a marcar - 7,5ºC. No Velho Mundo, em regiões como a Áustria e a Alemanha, é preciso no mínimo - 7ºC para que as uvas sejam colhidas congeladas. Nessas condições, a água no interior das bagas congela e o gelo é separado do suco, rico em açúcar, por meio de prensagem das uvas. Em Pericó, segundo os produtores, elas foram imediatamente prensadas, ainda congeladas, e o suco, fermentado a temperatura controlada (10ºC) por cerca de 60 dias, até atingir de 10 a 12% de álcool. Depois, irá para barricas de carvalho francês Allier. É esperar para ver - e provar.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

As Descorchadas


Roberto Gerosa publicou anteontem no seu blog um post sobre confrarias de vinho. Há tempos que venho querendo postar algo sobre a minha confraria, fundada numa prova informal de alguns vinhos brasileiros para o Basilico, em casa, com a Bia Marques, que trabalhava comigo no site. Em uma semana, em junho de 2006, reunimos um grupo de 8 mulheres (basicamente o mesmo, até agora), que ganharam o nome de Descorchadas. Não somos do calibre do Chevaliers du Tastevin, nem temos integrantes famosos como na confraria do Periquita como exemplifica Gerosa, mas as pessoas que ouvem falar da confraria bem que se interessam em tirar uma lasquinha. Somos quase todas jornalistas (com exceção da nossa especialista em cafés), e o maior luxo a que nos demos até hoje foi um encontro em Paraty - regado a ótima comida no restaurante Margarida e com direito a passeio de veleiro. No mais, nos encontramos em casa em vez de restaurantes, cozinhamos "quase" sempre e temos a cada sessão um convidado de honra - como o especialista em vinhos da Folha, meu "mestre" Jorge Carrara, que já participou de uma das nossas noitadas.

Nossa confraria é bem pé-no-chão - optamos por uma linha custo-benefício, e por temas ainda bastante amplos, como uvas de um determinado país. Não usamos fichas para atribuir notas aos rótulos, apenas provamos (às cegas), fazemos nossos comentários "de nariz e de boca", tomamos nossas anotações e elegemos o melhor da noite. E nem sempre conseguimos ser sistemáticas e nos encontrar todos os meses — com um bando de jornalistas em fechamento, era meio previsível. Mas são noites imperdíveis, podem acreditar. A última foi até bem chique, com vinhos feitos majoritariamente com a uva merlot pelo mundo. Estavam na roda o brasileiro Desejo 2005, o argentino Pulenta State Merlot 2006, um Bordeaux (claro), o Château Malmaison Barone Nadine Rothschild (80% merlot, 20% cabernet, R$ 142 na Zahil) e o italiano Planeta 2005 (95% merlot e 5% petit verdot), 90 pontos na WS (abraviação dos iniciados para a Wine Spectator).

Para abrir os trabalhos, uma deliciosa champagne Piper Heidsieck. E um cardápio caprichado para depois da prova (ainda não nos preocupamos muito com harmonização, ok?): bifun com pato desfiado, salada de folhas verdes e, de sobremesa, diversos brigadeiros da Maria Brigadeiro. Tudo de bom!


(Cinco de nós - não tenho uma foto com todas, unfortunately - na época do lançamento do meu livro. Foto de profissional, claro)


E a sobremesa do último encontro!

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Para degustar, na KitchenAid

A Escola São Paulo vem investindo no ramo da gastronomia. Com ênfase na área de cultura contemporânea, ela já promoveu uma porção de aulas de vinho com o sommelier Manoel Beato. Agora ela lança um ciclo de palestras na recém-inaugurada loja da Kitchen Aid, a primeira no Brasil. Vale a pena divulgar as aulas e a loja, que visitei logo na sua abertura.

Quanto às aulas: elas começam no dia 28/7, como o editor André Boccato (Regiões da Itália: Histórias em Pasta e Vinho), aula que continua no dia 30/7; nos dias 1 e 3/9, o professor da Anhembi Morumbi Ricardo Maranhão comenta os Sabores do Renascimento; dias 15 e 17/9 é a vez do crítico Josimar Melo (que anda na TV com seu programa O guia, no National Geografic Channel, aos domingos à noite), falando sobre o vinho e a cultura francesa; em outubro (dia 8), a ótima Paola Carosella dá uma aula sobre cozinha contemporânea (para quem ainda não conhece seu restaurante, o Arturito... please!), e no dia 27/10, Andrea Kaufmann, do AK Delicatessen (SP), ensina a preparar pratos judaicos mais modernos. As aulas acontecem a partir das 20h, com valores que começam em R$ 120 (todas incluem algum tipo de degustação no final).



Quanto à loja: bem, se eu disser que ela tem 350 m2 e está na alameda Gabriel Monteiro da Silva, já está quase tudo dito: chiquérrima, ampla etc., etc. Mais do que as linhas de panelas (que, infelizmente para os pobres mortais, são vendidas em conjunto), ela se destaca pelos pelos equipamentos - majoritariamente em inox e para embutir, como o forno com opção de vapor, maravilhoso. Bem, e pelo preço: uma cozinha completa, com 6 eletrodomésticos, custa R$ 50 mil (o forno em questão custa R$ 11.900). Pois é. Meu objeto do desejo (digamos, por enquanto) é um mixer, que custa "apenas" R$ 490. E que vem com batedor de claras - bom, como eles têm aquela maravilhosa batedeira, que fez meu pudim de leite ficar irresistível, não duvido que a do mixer quebre bem o galho...


Uma das cozinhas foi pensada, justamente, para acomodar eventos diversos, como as aulas da Escola São Paulo. Ah, e ela tem um jardim nos fundos muito charmoso.

Informações e inscrições na Escola São Paulo, pelo tel. 11/3081.0364.
KitchenAid (al. Gabriel Monteiro da Silva, 1.241, Jardim Europa, 11/3081.6105)

domingo, 19 de julho de 2009

Chefs mexicanos vem ao Brasil


O Obá prepara, a partir do dia 23 de julho, mais um dos seus já aguardados festivais gastronômicos. Foi num deles, aliás, que experimentei pela primeira vez a comida da mexicana Lourdes Hernández-Fuentes. Desta vez, as estrelas são os também mexicanos Benito Molina e Solange Muris, que até o dia 2 de agosto participam da Semana del Tequila y Gastronomia de Cantina Mexicana.

A dupla, que mantém o restaurante Manzanilla, na cidade de Ensenada, ao norte do país, pertence à nova leva de chefs que vem procurando renovar a cozinha do país (alguns o fazem com bastante sucesso, como tive a oportunidade de comprovar em minha viagem ao México no início do ano. Um deles merecerá, oportunamente, um post à parte). Quanto à cantina mexicana, ela nada mais é do que um bar simples, que serve porções e algumas comidas tradicionais regados ao bom tequila.

A dupla chega nesta segunda, dia 20. Lá, costumam usar ingredientes regionais muito frescos, como os diversos chiles, a baunilha mexicana e os moles (salsas complexas, com uma infinidade de ingredientes, cores e texturas, desde a época pré-hispânica), que desembarcam por aqui. O cardápio, me explica Delgado, ainda é surpresa. "Como eles trabalham produtos muito frescos, mandei vir ostras, mexilhões e vôngoles de Santa Catarina. Depois, vamos ao Mercadão e ao Ceasa, para que eles decidam o que comprar", conta ele. Serão 15 antojitos (pequenos bocados, geralmente com a base feita de tortilla) e 3 sobremesas ao longo do festival, servidos no almoço e no jantar (a R$ 145, com direito a 4 tipos de tequila e margaritas). O jantar-degustação do dia 28, pelo mesmo preço, pode ainda reservar mais surpresas.

Tacos dourados de frango

Os antojitos são parceiros ideais para a degustação do tequila. Ah, e por falar em tequila, serão apresentados 19 rótulos – a maior diversidade que se pode encontrar na cidade. Desses 19 (ao contrário da precariedade da nossa legislação com relação à cachaça, o tequila tem denominação de origem controlada), 14 são 100% feitos de agave, a melhor categoria existente. Pois só são considerados tequila os destilados de agave azul Weber (nome do botânico alemão que os classificou), plantado em apenas 5 estados mexicanos. Os tequilas mais comuns (praticamente os únicos consumidos pelos brasileiros) tem em sua composição, no mínimo, 51% de agave azul. Os 100% agave, mais sofisticados e bem cuidados, dividem-se em cinco classes, definidas a partir das características que adquirem após a destilação: blanco, joven ou oro, reposado, añejo e extra-añejo.

Tostadas de cochinita pibil

Alguns exemplares da bebida vão parar nas deliciosas margaritas, como as de tamarindo e melancia. E tem mais: aqueles que participarem do festival concorrem a duas passagens para o México.

Aproveito para dar aqui uma receitinha de um drinque ótimo feito com tequila:

2 partes de tequila
1/2 parte de agave néctar*
1 parte de suco de limão
1 parte de água gelada

Bata tudo numa coqueteleira e sirva em copo com gelo. Você pode colocar suco de limão e sal na borda do copo (eu prefiro sem).

* o néctar ou xarope de agave é feito a partir do suco extraído da piña (o coração) de algumas espécies de agave, que depois é filtrado e aquecido. Depois, ele é concetrando e ganha uma consistência um pouco mais rala que a do mel, e sabor delicado e um pouco mais doce. Creio que é difícil de se encontrar por aqui, então, substitua-o por mel.


Obá restaurante (rua Dr. Melo Alves, 205, Jardins, São Paulo, 3086.4774)