segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Vinhos e o aquecimento global


Vinhedo em Paarl, África do Sul

A primeira coisa que me assustou ao assitir, terça-feira passada, a palestra sobre aquecimento global ministrada pelo espanhol Pancho Campo, presidente da Wine Academy of Spain, durante um curso de vinhos espanhóis: contrariamente ao que os céticos afirmam, não há mais ciclos de alternância de temperaturas, como as que ocasionaram as glaciações de outrora. Agora, a temperatura do planeta só faz subir...

... E os vinhedos vão sofrer com isso. Nos últimos 25 anos, a temperatura global subiu 2,8ºC. O prognóstico para 2100 é uma elevação de temepratura entre 1,4ºC e 5,8ºC. O efeito de mudanças climáticas sobre o ciclo vegetativo das videiras é uma ameaça real, e trará diversas consequências.

* Uma delas é uma espécie de "câncer" na casca das uvas: por conta da ação dos raios ultravioleta, a videira faz menos fotossíntese, produz menos açúcar e menos compostos aromáticos; surgem aromas não desejados, sobretudo nos vinhos brancos. Os raios UV-B tambem afetam o metabolismo do Nitrogênio, que é o principal alimento das leveduras, o que resulta, por exemplo, na baixa qualidade de perlage dos vinhos espumantes.

* Outra conseqüência desastrosa são as pragas, que podem se proliferar desordenadamente, ou podem mudar de vetor. A Lobesia botrana (foto), por exemplo, adora o calor e se alimenta de uvas. Deixa nelas um buraquinho, logo preenchido por fungos...



* Por causa da mudança climática, as colheitas estão adiantando. Uma pesquisa feita por Pancho na região de Penedès mostrou que, em dez anos, a colheita foi antecipada em 12 dias. Isso significa que as uvas passam a ter um teor de acidez mais baixo, e uma maturação alcóolica mais elevada. Se a temperatura média ultrapassar 35ºC, os estomas (pequenos poros localizados nas folhas das plantas, reponsáveis pelas trocas gasosas) se fecham e a planta colapsa, deixando de produzir açúcar. O resultado é um vinho naturalmente desequilibrado, amargo e adstringente, obrigando o enólogo a fazer intervenções.

* Diante dessa calamidade galopante, os vinhateiros andam procurando clones mais resistentes e novas regiões de plantio. Miguel Torres, um dos mais importantes produtores espanhóis, já há tempos busca terras em regiões de altitudes mais elevadas, que sofrerão menos com o aquecimento global. Segundo Pancho, ele já gastou cerca de US$ 10 milhões na inversão de seus vinhedos.

* Muitas uvas já estão sendo apontadas como promissoras nesse novo panorama: petit verdot, graciano (cuja acidez é naturalmente alta), vermentino, viognier e verdelho são algumas delas.

* Por outro lado, há projeções alarmantes: em 2100, acreditam os especialistas, não haverá mais vinhos feitos com a uva albariño.

* E quanto a nós? Para minimizar esses efeitos, podemos evitar ar condicionado, trocar sempre que possível o carro pela bicicleta, investir em painéis solares para a produção de energia... E tomar muito vinho, enquanto ainda os temos...


2 comentários:

lufec disse...

crica, dica: programe o blog para deixar mais posts na home. quem não entra todo dia (não é o meu caso) pode perder algumas postagens nesses momentos de empolgação (rá!) que você traz um monte de novidades.

Cris Couto disse...

ok!